Fonte: Comex do Brasil
Menotti Franceschini (*)
O custo e a complexidade do ambiente aduaneiro e tributário brasileiro são desafios históricos para as diretorias financeiras. Nas últimas duas décadas, a resposta padrão do mercado para mitigar riscos operacionais foi a adoção em massa de ferramentas de gestão em nuvem sob o modelo tradicional de SaaS (Software as a Service).
Essas plataformas digitalizaram processos e trouxeram exatidão para a conferência de dados, preparando o terreno para que o avanço recente da inteligência artificial generativa ampliasse o horizonte além do suporte operacional. Inicia-se, assim, uma transição rumo ao conceito de SaS (Service as Software), no qual o sistema deixa de ser apenas um instrumento de produtividade para assumir diretamente a execução de tarefas complexas de ponta a ponta.
Essa evolução representa o amadurecimento natural das soluções digitais. No modelo clássico de contratação por licenças, as empresas capacitam equipes internas para operarem os sistemas em um fluxo manual e dependente do fator humano. Já na lógica de “Serviço como Software”, contrata-se diretamente o resultado do fluxo de trabalho. Em vez de adquirir um sistema para que um especialista faça o fechamento fiscal ou a conferência de documentos, a organização passa a dispor de uma inteligência autônoma que realiza todo o processamento, direcionando apenas inconsistências e exceções para a análise humana.
Essa mudança de perspectiva traz um apelo econômico estratégico direto para a competitividade dos negócios. Um levantamento da gestora americana Sequoia Capital aponta que, para cada dólar investido em softwares tradicionais, as empresas gastam em média seis dólares com serviços de suporte e terceirizações de back-office. Ao assumir a execução direta do processo, a automação passa a atuar sobre essa parcela expressiva do orçamento, liberando profissionais antes focados em rotinas repetitivas para atuarem em frentes estratégicas, como o planejamento tributário e logístico.
Os segmentos com maior potencial de absorção dessa tendência são justamente os intensivos em documentação e regras claras, como as áreas aduaneiras, contábil, tributária e jurídica. No entanto, em mercados fortemente regulados, a inteligência artificial não opera sem diretrizes rígidas. A automação de processos críticos exige bases de dados de alta qualidade, rastreabilidade e uma estrutura sólida de governança corporativa, acompanhada por auditoria humana constante.
Um exemplo dessa transformação já pode ser observado no próprio comércio exterior. Na RGC, serviços integrados como classificação fiscal, gestão de catálogo de produtos e gestão de Ex-tarifários são executados por um time especializado de consultoria que utiliza tecnologia e inteligência artificial como parte central da operação. Nesse modelo, a tecnologia não substitui o conhecimento técnico, mas amplia sua capacidade, contribuindo para maior qualidade, produtividade e visibilidade dos processos para os clientes.
Essa combinação ajuda a traduzir, na prática, o conceito de Service as Software (SaS): o cliente não contrata apenas uma ferramenta para que sua própria equipe execute determinada atividade. Ele contrata o serviço e o resultado, enquanto tecnologia, IA e especialistas trabalham de forma integrada para entregá-lo. A automação assume uma parcela crescente das atividades operacionais, enquanto os profissionais concentram sua atuação nas exceções, validações e decisões que exigem maior conhecimento e julgamento técnico.
Essa simbiose entre IA e curadoria técnica dita a sustentabilidade do modelo. A real vantagem competitiva das soluções modernas não reside apenas em algoritmos avançados, mas na combinação entre a velocidade do processamento e a experiência prática de especialistas. No comércio exterior e no planejamento tributário, cenários nos quais as mudanças regulatórias são bruscas e frequentes, a supervisão humana qualificada continua sendo a blindagem indispensável contra riscos operacionais e contingências fiscais.
Em um ambiente corporativo marcado pelo intenso dinamismo regulatório do país, o avanço desse novo modelo de software sinaliza um caminho promissor de eficiência. As empresas que entenderem que os sistemas agora podem assumir a execução de rotinas padronizadas, enquanto os profissionais atuam como arquitetos de estratégias, estarão consideravelmente mais preparadas para elevar a produtividade e a conformidade de suas operações.
Menotti Franceschini, sócio na RGC Consultoria (*)
O post SaS (Service as a Software) – um novo modelo de serviços revolucionando a gestão de comércio exterior e benefícios tributários apareceu primeiro em Comex do Brasil.
